História

O “Álbum de Araraquara” famoso e esmerado documento histórico editado em 1915 por João Silveira e organizado por Antonio M. França sob os “auspícios” da Câmara Municipal de Araraquara informa que a fundação do Clube Araraquarense foi motivada porque naquela época, (em 1882), dadas as difíceis vias de comunicações com a Capital, Araraquara raramente era visitada por “companhias de cavallinhos”.

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Ata de fundação do Clube Araraquarense.

Pretendiam informar que em termos de lazer e recreação a não ser as opções naturais, como a caça e a pesca ou as festas religiosas das quais participavam artistas domésticos, amadores e no máximo diletantes da região, nenhuma outra opção existia e certamente as notícias que chegavam sempre atrasadas pelos jornais da época relatando as apresentações de empresas teatrais a realização de bailes, “pelejas”, campeonatos e outras formas de diversão aguçavam os desejos dos araraquarenses.

Foi então “creada”, esta sociedade por iniciativa do Dr. José Cesario da Silva Bastos, Dr. Lino Cassiano Jardim e Carlos Batista de Magalhães que inicialmente e durante algum tempo funcionou num prédio de propriedade da Sra. D. Maria Vaz de Arruda Ferraz”, cujo endereço não foi possível identificar com certeza.

Todavia, desde logo tratou-se de se adquirir um terreno para a construção da sede própria. Este terreno foi comprado por vinte contos de Réis e localizava-se na então Rua do Comércio, atual Rua São Bento, entre as Ruas Luiz Pinto e Sete de Setembro, respectivamente as atuais Avenidas São Paulo e Portugal, exatamente no local onde hoje ergue-se o Cine Capri, fazendo divisa com quem da via pública olha para o terreno, á direita com o prédio que mais tarde foi sediado o Banco de Araraquara, atual Edifício Waldo Barbieri, e de outro onde mais tarde seria construído o Hotel Municipal.

Em 1885, portanto, apenas três anos após a sua fundação o Clube inaugurou a sua sede própria.

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Antigo prédio do Clube Araraquarense: Foi sede do Clube 27 de Outubro. Nesta foto começa a demolição do prédio inaugurado em 1882 para construção do sobrado de três andares para cinema. Prédio ao lado do Hotel Municipal.

Desde a sua fundação, o Clube desempenhou um importantíssimo papel na vida da cidade. A sua história, pode-se afirmar sem dúvidas, é paralela à própria história da cidade e inúmeras vezes os destinos de ambas foram definidos ou pelo menos se cruzaram nas dependências do Clube. Este tornou-se a sala de visitas da cidade de Araraquara onde a grande maioria das realizações e seguramente as mais importantes eram vividas em seus salões. O Clube chegou a abrigar momentos importantes da nossa história, como o alistamento da campanha da Revolução de 1.932, e o Salão do Juri.

Foi neste prédio que em seis de novembro de 1886 a sociedade araraquarense recebeu a visita de Sua Majestade Imperial o Imperador Dom Pedro II, e sua comitiva, sendo ele, o primeiro signatário do livro de visitantes do Clube Araraquarense, atualmente guardado sob custódia do Museu Histórico e Pedagógico “Voluntários da Pátria”, comentando apenas para ilustrar que curiosamente, Dom Pedro II, foi a mais alta autoridade, no exercício do cargo, que visitou Araraquara. Curiosamente, nenhum chefe de Estado, no exercício do cargo, visitou a cidade. Tivemos a visita de ex-presidentes ou de futuros presidentes, mas no exercício do cargo ninguém.

O casal Imperial e comitiva, partira ás 07:05h de São Carlos do Pinhal seguindo para Araraquara, ponto terminal do tronco da ferrovia da Companhia Rio Claro, aquí chegando Às 08;30h. Nas poucas horas que permaneceu em Araraquara, o Imperador acompanhado do Sr. Visconde de Paranaguá, Ministro da Agricultura, presidente da província e outras autoridades visitaram a Igreja Matriz, diversas escolas públicas, a casa da Câmara, cadeia, onde haviam quatro presos, e a máquina de beneficiar café do Sr. Eduardo Kaneese, um norte-americano radicado na Vila. O Visconde de Paranaguá, é a segunda assinatura que consta do livro de visitantes do Clube.

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Uma das primeiras fotos da sede de campo do Clube Araraquarense: Trata-se de uma quadra de tênis, que foi o primeiro esporte a ser praticado no local. Em vista disso passou a ser conhecido como “Tênis”. Durante muito tempo, e até hoje entre os araraquarenses mais tradicionais, se referem a sede de campo simplesmente como “Tênis”.

Dom Pedro, visitou o “gabinete de leitura” instalado no Clube Araraquarense, “…utilíssima instituição, que também proporciona aos seus associados diversas outras diversões”, como informou o Jornal do Comércio, na cobertura da visita, e na oportunidade ofereceu, ainda ao “Gabinete”, 100$000 (Cem Contos de Reis) para compra de livros.

A sede do Clube mudou-se para o atual endereço da Esplanada Antonio Correia da Silva, ao lado da Prefeitura Municipal somente por volta de 1.925. O prédio acima, com a desocupação do Clube serviu ainda como sede para uma outra entidade congênere, o Grêmio Recreativo 27 de Outubro , até 1936, quando foi demolido para dar lugar à edificação de um prédio de dois pavimentos próprios para a instalação de cinema, – o Cine Paratodos.

A sociedade, á princípio, denominava-se, como até hoje, “Clube Araraquarense” . Na pesquisa aparece ainda, embora em poucos lugares, a denominação “Clube Recreativo Araraquarense” ; não foram encontradas informações mais detalhadas para afirmar que tratava-se da mesma sociedade, com um nome derivativo, ou cognome utilizado pela imprensa ou por qualquer outra pessoa menos atenta ou se em algum momento foi fundada uma outra sociedade a qual inseriu-se o adjetivo “recreativo”.

O Clube desempenhava também um importante papel cultural e para isso tinha feito inserir nos seus estatutos a obrigatoriedade da manutenção de uma biblioteca, ou como se costumava dizer na época, um “gabinete de leitura” , que foi formada por doações expontâneas dos sócios.

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Mapa de Araraquara à época da Fundação do Clube Araraquarense: 1. Local da Sede Social – na Rua do Comércio, hoje São Bento, entre as ruas Luis Pinto e Sete de Setembro respectivamente a Av. Portugal e São Paulo, Local onde está construido o Cine Capri; 2. Rego d’agua que descia pelas imediações da rua Formosa, hoje Padre Duarte, passava em frente a Igreja Matriz de São Bento indo desaguar no córrego da Servidão; 3. Igreja Matriz e São Bento (ainda hoje no mesmo local); 4. Rua Formosa, hoje Padre Duarte; 5. Rua do Comércio, atual Rua São Bento; 6. Rua Cruzeiro do Sul, atual Rua Nove de Julho; 7. Rua Das Flores, atual Duque de Caxias; 8. Rua Sete de Setembro, hoje Av. Portugal; 9. Rua Luiz Pinto, atual Av. São Paulo; 10. Rua São Lourenço, hoje Av. Brasil; 11. Da Boa Morte, atual Av. Dom Pedro II, este nome se deu porque foi nesta rua, onde hoje se localiza a praça da Independência, que foi erguida a forca que sentenciou o único condenado á morte da história de Araraquara: o escravo Antonio de Angola que assassinara o seu patrão; 12. Rua sem denominação oficial, atual Maria Janasi Biagioni.

Desta época, nos primórdios do Clube, infelizmente encontramos apenas dois volumes: “O Arco de Sant’Anna”, uma das obras do Visconde de Almeida Garrett, (XII, segundo do Arco; edição de um manuscrito achado no Convento dos Grillos do Porto por um soldado do corpo acadêmico, terceira edição, em Lisboa, pela Imprensa Nacional em 1859, adquirido por Carlos Batista de Magalhães em 1880, (dois anos antes da fundação do Clube) e doado á este em 1891; O segundo, também um romance de Alexandre Dumas, “Mohicans de Paris”, em francês, editado em Paris por Calmann Lévy, Editeur em 1889, adquirido pelo sócio fundador Pio Lourenço Correa, (aliás, uma das pessoas mais cultas que viveu em Araraquara, tio do escritor Mário de Andrade, que em sua chácara, hoje doada pela Família Saffioti à UNESP,. foi escrito trechos da obra “Macunaína”), em Buenos Aires no ano de 1892 e doado pelo mesmo em 12 de fevereiro de 1907.

O Clube experimentou um período de latência. Seus associados eram da camada social mais elevada da comunidade integrada pelos senhores do café e alguns poucos comerciantes e profissionais liberais, a maioria deles simpatizantes do pensamento republicano. Os acontecimentos sociais e políticos vividos pela Nação Brasileira, com a abolição da escravatura, em 1888, a proclamação da República em 1889, a sua própria consolidação, com o Marechal “de ferro” Floriano Peixoto, e ainda em particular com os episódios da morte do Coronel Carvalho e o linchamento dos Britos, este último por pouco não transformado em estopim nacional para uma reação da Monarquia derrubada, aliado-se ainda a epidemia da Febre Amarela, certamente fizeram com que o ideal da continuidade de uma associação destinada à recreação e ao laser, fosse momentaneamente relegado para segundo plano, em vista dos graves problemas pelos quais passava a comunidade local, porém a sua reativação poderia ocorrer a qualquer momento, até por necessidade, tão logo voltassem os períodos mais tranqüilos.

O retorno das atividades do Clube não deveria tratar-se apenas de uma reabertura de portas. O Governo Federal havia promulgado a Lei no. 173 em 10 de setembro de 1893 que disciplinava dentre outras coisas a formação das sociedades recreativas e esportivas. Impunha-se não uma simples “volta as atividades”, mas um verdadeiro renascimento.

Assim, o Clube “renasceu” de uma assembléia geral realizada no dia 1o. de Janeiro de 1907 presidida por Carlos Batista Magalhães, quando foram aprovados os novos estatutos sociais.

Esta é em síntese, a história do nosso Clube, seguramente ao lado da Câmara Municipal, as mais antigas instituições ainda em atividades na região de Araraquara. Em próximas atualizações desta página estaremos inserindo também tópicos interessantes da História do Clube Araraquarense.